MEDITAR  O  MISTÉRIO DA PAIXÃO  DO  SENHOR

            Há algum tempo atrás escrevi um artigo sobre  o Domingo de Ramos, publicado neste site, e pelas respostas que recebi, creio, humildemente, ter contribuído para uma melhor compreensão desta bela celebração que a Igreja nos oferece como memória da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e as conseqüências decorrentes desse acontecimento.
         Dando seqüência a essa linha de reflexão, pergunto: — O que a Igreja nos propõe como meditação nos dias que se seguem, segunda a quarta-feira, da Semana Santa? O que podemos refletir nessa primeira metade desta semana, já que nenhuma celebração especial marca esses dias?
         Pois bem, durante esses dias a Igreja nos sugere uma meditação mais aprofundada sobre o mistério da paixão de Jesus, nosso Senhor. Nossa mãe Igreja nos orienta para um aprofundamento na paixão de Cristo para vivermos mais e melhor a espiritualidade da Semana Santa. Particularmente, no ofício das leituras, ela nos recomenda a partir da quinta semana da Quaresma, a leitura da Carta aos Hebreus. Essa carta nos revela o significado e valor dos sofrimentos de Cristo como elemento de redenção. Em Hb 10, 14 lemos: “Com esta única oferenda, levou à perfeição e para sempre, os que ele santifica”. O sacrifício de Cristo em nosso favor se revela em dois aspectos, o de sacerdote e vítima. Ele se entrega ao Pai como vítima perfeita, sem mancha, pois como afirma São Paulo, por um homem, Adão, entrou o pecado no mundo; também por um homem, Cristo, o pecado é tirado do mundo. Jesus é o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo! Como vítima, Cristo se fez pecado por nós, assumindo sobre si toda a nossa culpa! Como sacerdote, se faz mediador entre a humanidade e o Pai. Aquele que intercede por nós junto a Deus incessantemente, incansavelmente, eternamente!
         O sofrimento de Cristo por nossa causa nos é apresentado pela Igreja como exemplo e modelo de vida cristã. Na terça-feira, são Basílio, nas leituras dos Padres da Igreja, nos diz: “É, portanto necessário atingir a perfeição, imitar a Cristo, não só nos exemplos de mansidão, humildade e paciência de sua vida, mas ainda imitá-lo em sua morte, como diz São Paulo, o imitador de Cristo: ‘Configurando-me à sua morte, com a esperança de chegar à ressurreição dos mortos’” (Liturgia das horas II, p. 301).
         Conforme o exemplo de Cristo que sacrifica sua vida por nós, também santo Agostinho, pregando sobre a plenitude do amor cristão, nos exorta a imitar Jesus nos colocando dispostos a sacrificar nossas vidas por nossos irmãos. Assim, temos, na história da Igreja, tantos e tantos mártires que, no passado e nos dias atuais, derramaram e continuam derramando seu sangue pelos irmãos, por amor a Cristo. Santo Agostinho, doutor da Igreja, nos aconselha: “Amemos-nos, pois, uns aos outros,como Cristo nos amou e se entregou por nós” (Liturgia das Horas II, p. 305).
          Na quarta-feira, a Igreja nos sugere a leitura de Mt 26, 14-25. Essa leitura nos apresenta a traição de Judas. Ela nos descreve como Judas foi ter com os chefes dos sacerdotes e se oferece para trair Jesus. Aceita trinta moedas de prata como recompensa de sua traição. Por apenas trinta moedas de prata, um dos Doze entrega o Mestre!... É chegada a hora das trevas!... Podemos meditar aqui sobre a agonia de Jesus no Monte das Oliveiras quando, diante do sofrimento que passaria nas próximas horas, Jesus, numa tristeza mortal, num gesto humano suplica ao Pai: “Meu Pai, se possível, que este cálice passe de mim” (Mt 26, 39). Mas imediatamente, como cordeiro que vai para o matadouro, diz: “Contudo, não seja feito como eu quero, mas como tu queres” (Mt 26, 39). É a Vítima perfeita que se entrega, é o Cordeiro Pascal, é aquele que tira o pecado do mundo por amor! O Bom Pastor, aquele que dá a vida por suas ovelhas!
          Jesus faz do dom de sua vida entregue, doada livremente por nós, a Nova e eterna Aliança com o Pai celeste.
            Livres do pecado, vivemos agora na liberdade de filhos e filhas de Deus. 

Foto - Internet (Filme: A Paixão de Cristo - Mel Gibson)