A  QUARESMA

              A Quaresma é um período de quarenta dias que se inicia a partir da Quarta-feira de Cinzas e termina no início das celebrações do Tríduo Pascal, a comemoração da Paixão, Sepultura e Ressurreição de Cristo.

              Viver a Quaresma só tem sentido à luz do Tríduo Pascal que culmina na Ressurreição de Jesus Cristo, a Cabeça, e dos cristãos, seus membros.

              A liturgia da Quarta-feira de Cinzas, que abre o Tempo da Quaresma, nos recomenda dar esmola, exercitar a oração e o jejum, conforme Mateus 6, 1-8.16-18. Neste Evangelho está a síntese dos exercícios quaresmais de conversão.

              A oração é, para nós, até compreensível, pois o bom cristão está acostumado a orar e encontrar na oração a força de Deus para caminhar testemunhando o Cristo na família, na comunidade e na sociedade. Mas por que fazer jejum e dar esmola ? Estes exercícios quaresmais são uma prática muito antiga da Igreja e o Concílio Vaticano II manteve esses exercícios. Mas que sentido eles têm para o cristão hoje ? Temos tantas obras de promoção social; não seria melhor dedicar-nos à algumas delas ? Talvez muito de nós pense assim e questionem essa prática tão antiga.

              Vamos então, tentar entender ou mesmo descobrir a razão, o sentido mais profundo da oração, do jejum e da esmola no período da Quaresma: Todos sabemos que estes quarenta dias que precedem a Páscoa do Senhor, constituem um tempo forte de penitência e mudança de vida: as leituras bíblicas, os exercícios de piedade, tudo leva à conversão. E, para que ocorra verdadeiramente a conversão, surgem a oração, a esmola e o jejum, pois eles atingem profundamente o relacionamento do ser humano com Deus (na oração), com o próximo necessitado de ajuda (na esmola) e o relacionamento com a natureza criada (no jejum).

              A nossa vida cristã deveria ser sempre pautada pela oração. Ela constitui uma abertura para Deus, é um sim para o Criador, é um louvor, é estar conforme a vontade divina. Todos nós, pelo Batismo, fomos chamados (vocacionados) por Deus e, só podemos realizar plenamente nossa vocação cristã quando em comunhão íntima de vida com Deus na oração. Somos filhos e filhas do mesmo Pai que se revela profundamente amoroso. Por isso, na Quaresma a Igreja convoca a todos ao exercício da oração. Sigamos o exemplo de Cristo que passava noites inteiras em intimidade com o Pai na oração.

              O exercício quaresmal da esmola leva o cristão e se relacionar com o  próximo carente, necessitado de atenção e de carinho, leva-o a exercitar a caridade, uma virtude teologal. Dar esmola é dar de graça, dar sem interesse de receber de volta, é deixar o egoísmo de lado, é não esperar recompensa. Tudo o que temos e que somos vem de Deus, recebemos de graça, por isso de graça devemos dar, devemos colocar nossos dons a serviço. Dando esmola, imitamos Aquele que por excelência exerceu a esmola: Jesus Cristo. Dar esmola é abrir-se ao próximo, é servir ao irmão com generosidade é desprender-se dos bens materiais, é reconhecer no outro a imagem e semelhança do Criador. Neste sentido a esmola é doação gratuita não somente de bens materiais, mas de tempo, de interesse, de acolhimento, de serviço, de aceitação. A esmola nos remete à generosidade de Cristo que deu sua vida pelos seus, derramou seu sangue pela humanidade, doando-se aos seus irmãos.

              Se a oração nos leva ao relacionamento íntimo com Deus e a esmola nos relaciona com o próximo, o que dizer do jejum ? O exercício do jejum não vale pelo que é, mas pelo que significa. A determinação de não comer nem beber liberta o cristão da tendência de apoderar-se das coisas. Liberta-o da escravidão do ter mais do que ser. Jejuar é abster-se de um pouco de comida ou de bebida que leva o ser humano ao correto relacionamento com a criação. Jejuar é respeitar a natureza criada, é abrir espaço para Deus. No jejum, a Igreja nos lembra Jesus que, logo após o seu batismo, jejuou quarenta dias no deserto numa atitude de liberdade e de domínio sobre si mesmo, sobre a natureza e sobre o mal. Como Igreja, somos o prolongamento de Cristo, somos seu corpo e seus membros, por isso, como Cristo, somos livres e devemos estar em harmonia com a natureza, usufruindo dos bens com responsabilidade e bom senso. O jejum é um verdadeiro exercício de conversão.

              Esperamos com sinceridade que estes três exercícios quaresmais: a oração, a esmola e o jejum, sejam efetivamente bons instrumentos de conversão nesta Quaresma e em toda a nossa vida cristã.