Na Bíblia, encontramos relatos no Antigo Testamento, e também
na época de Jesus, de
pecadores públicos se que vestiam com panos de saco e colocavam
cinzas na cabeça e no corpo como sinal de arrependimento. Era um
sinal visível de mudança de vida. O pecador reconhecia suas
ofensas a Deus e passava a fazer jejum e penitência.
Lá pelo século X, tornou-se costume na Igreja, que todos os
fiéis recebessem cinzas em suas frontes. Isso acontecia no primeiro
dia da Quaresma. Surgia ai a Quarta-feira de Cinzas. Desde aquela época
até os dias atuais, esse costume é mantido. Abre-se o tempo da
Quaresma com a recepção das cinzas, sinal exterior de que a
Igreja, Povo de Deus, manifesta claramente a disposição em
submeter-se à penitencia. Como Povo de Deus, todos nós damos sinal
ao mundo de que somos pecadores e a penitência é o remédio eficaz
no combate ao pecado em busca da conversão.
Somos peregrinos neste mundo em busca da Casa do Pai. Somos
caminheiros rumo ao Reino definitivo. Nesta caminhada tropeçamos,
erramos, pecamos e, a Igreja, Mãe e Mestra, nos indica a Quaresma
como tempo apropriado para a penitência. Mas o que é penitência?
Temos consciência do que essa palavra significa? A tendência comum é de nivelarmos a penitência às práticas
do jejum e abstinência. Sem dúvida essas duas práticas são
realmente manifestações de penitência. São salutares e devem ser
exercidas não apenas nos quarenta dias que antecedem a Páscoa, mas
no decorrer de nossa vida. Procuremos então, aprofundar um pouco
mais no significado cristão de penitência.
Tanto no Antigo como no Novo Testamento, penitência é sinônimo
de conversão, de mudança do coração, de mudança de mentalidade,
de correção de rumo, de volta para Deus por meio de Cristo, nosso
Salvador. Fazer penitência implica mudança interior, exige oposição
ao pecado, abandono de tudo o que era empecilho em nossas vidas e
que nos afastava de Deus. Exercer a penitência é mergulhar no
mais profundo de cada um de nós, é atingir a essência do nosso
ser e reorientar nossa vida para Cristo, nosso Senhor.
Na Quarta-feira de Cinzas, no momento em que recebemos as
cinzas em nossas frontes, ouviremos o seguinte apelo da Igreja: “Convertei-vos
e crede no Evangelho!” Esse apelo deve atingir o âmago de
cada cristão para que ocorra a mudança do coração. É Deus quem
nos chama à conversão. Abstinência, jejum e oração pela graça
da conversão são instrumentos para esse fim.
Na maioria das vezes, a conversão é lenta e vai acontecendo
aos poucos em nossa vida. O Senhor está sempre nos chamando, não
cessa de nos convidar a mudar de vida. Por isso, a conversão é um
processo gradativo, desde que nosso sim a esse chamado seja uma
constante em nosso peregrinar.
Porque somos pecadores, necessitamos da graça de Deus para
que a penitência ou conversão seja eficaz. Necessitamos dela o
tempo todo, não apenas na Quaresma. A conversão nunca é total,
sempre fica em nós uma resistência ao Evangelho e à graça: a
dificuldade de oferecer o perdão a quem nos ofendeu profundamente,
colocar em prática o amar ao próximo como a nós mesmos, as vezes
o indiferentismo diante do sofrimento de tantos marginalizados.
Enfim, resistências à graça de Deus que nos afastam do Senhor e
nos tornamos necessitados de sua misericórdia. Por Cristo, o Pai
está sempre disposto a nos conceder misericórdia e a graça da
conversão. Mas é preciso responder à essa graça sem demora. O
convite de Deus ao arrependimento é constante e insistente. Por
isso a partir da Quarta-feira de Cinzas e em toda a época da
Quaresma, o Povo de Deus é chamado à penitência e conversão.
Ouçamos a voz de Deus e façamos o nosso mergulho no mais íntimo
do nosso ser para a conversão do coração, pois: “No
tempo favorável, eu te ouvi; e no dia da salvação, vim em teu auxílio.
Eis agora o tempo favorável, o dia da salvação.” (2 Cor 6,
2).