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Na Sexta-Feira Santa celebramos a Paixão do Senhor. Celebrar a
Paixão de Cristo não é celebrar simplesmente a morte de Jesus, mas
sim sua morte vitoriosa! O profeta Isaias, muito antes da vinda de
Cristo, já descrevia a imagem de Jesus sofredor tal como uma ovelha
conduzida ao matadouro levando sobre seus ombros todos os nossos
pecados. É a imagem de uma ovelha muda, mas não resignada. Jesus,
nas palavras de Isaias, assume corajosamente sua entrega total,
pois, mediante sua morte redentora, entrega seu amor e sua graça ao
ser humano, libertando-o do pecado.
Este é o único dia em todo o Ano Litúrgico em que não se
celebra a Santa Missa. O destaque é para a Palavra de Deus na
profecia de Isaias, no Salmo 30 que nos mostra Jesus abandonando-se
nas mãos do Pai: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. A Carta
aos Hebreus (Hb 4, 14-16; 5, 7-9) nos chama a atenção para a
obediência de Cristo até a morte de cruz. Por sua obediência, Cristo
torna-se o Salvador eterno para todos que têm fé e lhe obedecem.
O Evangelho deste dia é a leitura da paixão segundo João (Jo
18 e 19). O evangelista aqui destaca não apenas os sofrimentos de
Jesus enquanto humano, mas sua divindade e sua glória. Ao obedecer
ao Pai, a obra da salvação se realiza nele. Para João, Jesus sabe
aonde quer chegar, não é apenas uma vítima muda e impotente que cai
três vezes sob o peso da cruz; ele tem um sentido, uma meta, um
rumo, sua atitude é soberana e nobre. Ele aceita livremente sua
paixão. João quer nos mostrar que a cruz assumida por Cristo não é
obra do destino, da fatalidade, ela é sim um instrumento de
salvação, de redenção de toda a humanidade.
Como afirmei, não há celebração eucarística neste dia, mas
há a Comunhão, comungamos das Hóstias que foram consagradas na
Quinta-Feira Santa. Lembrando que estamos celebrando a morte
vitoriosa de Jesus, nossa Comunhão nos une intimamente ao Cristo
Ressuscitado, o mesmo Cristo que se oferece por nós em sacrifício ao
Pai. Na Sexta-Feira da Paixão do Senhor celebramos a morte de Jesus
na cruz como expressão máxima de seu amor pela humanidade. Sua
solidariedade foi tão grande para conosco que “tendo amado os seus
que estavam no mundo, amou-os até o fim”, amou-nos até as últimas
consequências e deixou-nos um mandamento: “Amai-vos uns aos outros
como eu vos amei” (Jo 13, 34).
A expressão máxima desta celebração é o sofrimento de
Jesus. Sofrimento que se solidariza com o sofrimento humano. Deus
não deseja e nem quer o sofrimento de ninguém, mas há sofrimentos
humanos que não se explicam, pois, entram no mistério. Quantas
pessoas inocentes sofrem; quantas crianças sofrem pela falta de
solidariedade, pela ganância, pelo egoísmo, pela má distribuição da
renda, enfim, são seres inocentes. Por que? Encontrar explicações
para o sofrimento de seres humanos inocentes torna-se difícil. Jesus
ao solidarizar-se com o sofrimento humano nos mostra sua busca e
vivência do amor. O amor não cria sofrimento, ele gera a vida e,
Cristo quer vida e vida plena para todos.
Neste dia deve ser observado o jejum (exceto para crianças,
enfermos e idosos). Em todo o Ano Litúrgico, esse é um dos dois dias
em que se jejua; o outro é o da Quarta-Feira de Cinzas, quando
iniciamos a Quaresma. Mas, qual o valor do jejum? Ele tem valor
quando está voltado aos meus semelhantes. Deixo de comer algum
alimento ou mesmo uma guloseima e destino o valor que gastaria para
os mais necessitados. Ele tem valor quando faço “jejum da língua”,
deixando de tecer comentários sobre os outros, principalmente quando
esse comentário denigre a pessoa do outro. O valor do jejum está
presente quando deixo de fazer uma refeição no dia e envio esta
refeição a alguma pessoa que sei, passa fome. Fazer o jejum do
não-desperdício, respeitando e usando cada coisa conforme a
finalidade para a qual foi criada por Deus.
Devo buscar a “minha maneira de jejuar”, isto é, o que de fato posso
fazer de concreto pelo meu irmão, o meu próximo, ajudando-o,
promovendo-o, oferecendo-lhe condições de uma vida digna. Para isso,
o profeta Isaias nos ajuda ensinando-nos o jejum que tem valor: “O
jejum que eu quero é este: abrir as prisões injustas... partilhar
teu pão com o faminto, hospedar os pobres sem teto, vestir aquele
que vês nu, e não te fechares à tua própria carne”.
Enfim, celebrar a Sexta-Feira da Paixão do Senhor é assumir
a cruz com Cristo. Mataram Jesus, mas Ele voltou! Ele ressuscitou!
Ele venceu o mundo! Ele confirmou o que tinha dito: “Ressuscitarei
no terceiro dia!” Por isso, celebrar a Paixão de Cristo é sobretudo
celebrar a esperança da vida que vence a morte, é crer na
ressurreição, é crer na vida nova gerada em Cristo Jesus!
28/03/2009 |